quinta-feira, agosto 04, 2005

Liberdade condicional



Tentando não ser demasiado chocante, devo dizer que muitas vezes me dá vontade de tirar macacos do nariz em público (sim, leram bem). Não é para chocar as sensibilidades mais apuradas, mas na realidade penso convictamente o seguinte: haverá coisa mais nojenta do que fumar? é uma enorme jabardice que se faz ao meter os gases mais horrorosos até às profundezas mais interiores do nosso corpinho. No entanto fumar é uma actividade normalissima, desde o café mais rafeiro de aldeia até ao jantar mais chique, desde a pessoa mais desprezada até ao ministro ou cardeal mais famoso. E tirar macacos do nariz em público? acho que nem no café da aldeia, muito menos num jantar chique, nem o pior "pedreiro", quanto mais o cardeal ou o ministro. E que eu saiba até há uma grande preocupação com a qualidade do ar das nossas cidades.. mas isso é só mais uma das incoerências.
Este é apenas um exemplo demasiado nojento, mas há outros. Por exemplo, a dificuldade que duas pessoas de sexos diferentes têm em que os outros compreendam que eles podem ser apenas bons amigos e nada mais, ou a dificuldade que um grupo suficientemente unido de pessoas pode ter ao fazer um gesto simbólico de beijar as mãos uns dos outros num determinado momento especial levando-os a rir.
Enfim, são aos magotes os exemplos que se podem arranjar para mostrar como a sociedade tem sempre uma última, e determinante na maioria dos casos, palavra a dizer sobre aquilo que nós podemos ou não fazer, ou sobre a forma como podemos fazer.
Assim vivemos permanentemente sobre uma grande pressão desta coisa que é a sociedade. Alguns nem reparam que fazem tudo em função dela, outros apercebem-se disso mas não se importam, outros importam-se mas não fazem nada, outros bem tentam fazer mas não conseguem, e outros passam mil tormentas para agir como querem quando isso implica um colisão com esta grande massa.
E apesar disto tudo ainda há quem diga que somos livres! Realmente a liberdade está aí para quem quiser usá-la, mas poucos são os que se aventuram nisso porque, como já alguem muito sábio disse "Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela." (George Bernard Shaw), o que quer dizer que cada um só é mesmo livre quando decide optar por esse caminho arriscado.

O dicionário dá como definição de liberdade: faculdade de uma pessoa poder dispor de si, fazendo ou deixando de fazer por seu livre arbítrio qualquer coisa.
Infelizmente acho que uma definição mais verdadeira para o uso actual do termo seria: faculdade de uma pessoa poder dispor de si, fazendo ou deixando de fazer por seu livre arbítrio qualquer coisa, desde que esteja dentro dos parâmetros admitidos pela sociedade. Ou qualquer coisa assim.

Para os que ainda não perceberam o que limita a sua liberdade, espero que venham a perceber. Para os que já perceberam, espero que tenham a coragem de ser livres. Para os que já o tentam ser, não percam a força. Usem a sociedade como uma boa base para serem livres mas não ab-usem dela permitindo que ela vos limite!

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Sociedade, ela ou nós?

Acho que a sociedade tem as costas demasiadas largas e por isso estamo-nos sempre a referirmo a ela quando, principalmente quando queremos denunciar.

Mas acho que isto é muito desresponsabilizante de todos nós; ao fim e ao cabo, somos nós quem constitui a sociedade. Ou seja, no fim, a sociedade é o que nós, como grupo, decidirmos que queremos ser e é o como, em função disso, que institucionalmente decidimos querer fazer. A sociedade não é um terceiro em relação a nós, entre cada um e a sociedade não há o eu e o ela, há apenas o nós.

11:46 a.m.  

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